terça-feira, 26 de maio de 2015

Cenas da vida de uma cusca e suas vítimas




Assinala-se hoje o Dia Europeu do Vizinho.
Aproveito a data para vos contar a história do meu primeiro contacto com os vizinhos do prédio para onde fui viver quando regressei a Portugal.
 Era solteiro e bom rapaz, regressava com a sensação de que, em quase 25 anos de regime democrático, a mentalidade dos portugueses se tinha alterado.
A maioria dos leitores do On the rocks deve saber o que significa instalar-se numa casa nova. Gente que entra trazendo mobílias, a senhora dos cortinados, aem pregada doméstica que tacteia os cantos e entra e sai várias vezes ao dia, porque é preciso comprar mais qualquer coisa, o electricista, o homem que vem trazer o televisor e a aparelhagem de som, mais o da máquina de lavar, do fogão e do frigorífico, gargalhadas de amigos que não víamos há muito e apareceram para dar uma ajuda, o barulho de pregar na parede ( sempre durante o dia e nunca ao fim de semana, porque respeito a Lei do Ruído…) quadros e fotografias que fixam memórias de países longínquos, caixotes que chegam com aquilo que se foi acumulando ao longo de anos, noutras paragens, enfim, uma parafernália de sons e ruídos que mexem com o quotidiano de um prédio, mas que são inevitáveis quando nos queremos instalar confortavelmente e dar início a uma nova vida.
Saía do elevador carregando as últimas malas, quando uma senhora que já vira várias vezes, me abordou nestes termos, sem sequer me dizer boa tarde:
- Olhe, eu sou uma das administradoras do prédio. O sr. está a mudar-se para aqui, não é?
-Bem, neste momento só me estou a instalar, parto outra vez no final da próxima semana e só volto daqui a três meses. Estou a tratar de tudo para, quando regressar definitivamente, estar tudo em ordem e não ter sobressaltos.
-Vai voltar para Macau, é?
Arregalei os olhos. Como é que uma fulana com quem nunca falara sabia que eu tinha andado por Macau? E como é que se atrevia a fazer uma pergunta tão desconchavada, no primeiro contacto que tinha comigo? Mesmo assim, numa atitude de boa vizinhança esclareci-a:
- Já saí de Macau há uns tempos, agora estou a viver na Argentina. É para lá que vou…
- Bem, mesmo assim, deixe-me avisá-lo já de uma coisa. Já percebi que vem para aqui viver sozinho e quero que saiba que este prédio é muito calmo, não estamos habituados a gente solteira, por isso, não queremos barulho. Os homens solteiros gostam de fazer festas, trazer amigas e depois é um reboliço durante toda a noite. Para evitar problemas, é bom que saiba desde já quais são as regras do prédio.
Fiquei sem fala durante uns segundos. Depois lá consegui perguntar:


-Desculpe, como é que sabe que vivi em Macau e que sou solteiro?
- Quando o senhor andava em negociações para a compra da casa quisemos saber tudo a seu respeito. Quem era, de onde vinha, por onde tinha andado.
- Bem, pelos vistos a informação que lhe deram está desactualizada, uma vez que já não estou a viver em Macau …
- Mas vem para cá viver sozinho, não vem?
-Porque pergunta?
-Como não usa aliança e não vi ainda nenhuma senhora a acompanhá-lo com ar de ser sua esposa, penso que seja solteiro ou divorciado…
Não acreditava no que se estava a passar. Comprara casa numa zona onde, supostamente, o nível sócio-cultural das pessoas era pouco dado a mexericos e conversas de vão de escada. Pedi desculpa e, alegando cansaço, despedi-me. Sosseguei a senhora- que aparentava ser mais ou menos da minha idade- dizendo que respeitaria o direito ao repouso dela e de todos os vizinhos. Entrei em casa a remoer a situação e a dizer mal da minha vida. Ainda não me instalara e já estava com vontade de mudar de casa.
Quando voltei, ao fim de cinco meses- e não dos três que planeara – meti as malas em casa e decidi ir falar com a vizinha. Tinha o discurso estudado. Dir-lhe-ia “cheguei, agora vou ficar de vez e espero que não espiolhe a minha vida, não queira saber com quem entro em casa , salvo se estiver interessada em fazer-nos companhia”. Assim, curto e grosso a fim de evitar mais conversas.
Quando ela abriu a porta, fez um ar de espanto e disse:
- Ah! Até que enfim! Tinha dito que só demorava três meses, até pensei que tinha decidido ficar por lá por Macau… Olhe seja muito bem vindo, esperamos que se dê bem e gostávamos de o convidar para um dia destes vir jantar cá a casa. Eu e o meu marido cultivamos a boa vizinhança, sabe... e como não temos filhos, gostamos de receber os amigos em casa.
A minha cara deve ter-se coberto de um carregado sorriso amarelo, mas ainda consegui dizer:
-“ Um dia mais tarde combinamos, agora não é oportuno. Acabo de chegar e tenho que organizar primeiro a minha vida.”
Até hoje. Eu já lá não moro a tempo inteiro, a  senhora também não, mas enquanto lá vivemos, sempre nos cumprimentámos educadamente. Mais convites para jantar é que, felizmente, não houve.
Hoje, moro habitualmente num prédio  com muitos casais jovens. Os contactos são poucos. Apenas com meia dúzia de pessoas me demoro alguns minutos a conversar. Não frequentamos as casas uns dos outros. Vivemos com a urbanidade possível – uma palavra que detesto- discutindo duas vezes por ano os problemas do condomínio.
Provavelmente, serão poucos os que saberão que hoje é Dia Europeu do Vizinho. Talvez uma reportagem num telejornal o lembre, para encher chouriços.
Já agora, uma pergunta de cusca: qual é a relação dos meus leitores com os vizinhos?


9 comentários:

  1. Com os do patamar é bastante cordial.Recebemos as cartas registados uns dos outros, ou uma ou outra encomenda que chega sem que um de nós esteja em casa. Com os restantes, há um sorriso, um cumprimento. Não é má, a relação! :) Confesso, porém, que nem sei o nome da maior parte, quanto mais da vida deles! :) Espero que com eles aconteça o mesmo!

    Beijinhos, Carlos. :)

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  2. Sou de poucas falas. Odeio coscuvilhice.
    A minha relação resume-se a uma simples saudação, quando me cruzo com alguém. Habito o mesmo apartamento há 39 anos e apenas faço excepção a uma senhora a quem deixo umas chaves da casa, quando me ausento.

    Espero conseguir-me mudar para Lisboa até ao fim do ano.

    Beijinhos...vizinho do blog.

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  3. Peço desculpa pela má vizinhança, mas faltou escrever no final ...."Reeditado"

    A minha relação com os vizinhos é óptima, obrigada! ( da minha rua, claro)

    Janita

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  4. Fantástica porque cada um segue a sua vida!
    Somos vizinhos muito antigos não frequentamos as casas uns dos outros mas conhece-mo-nos muito bem e podemos contar uns com os outros em caso de aflição ou necessidade, resumindo: cordial mas com alguma cerimónia.xx

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  5. A mesma que o Carlos aqui afirma ter com os seus.
    Encontra-mo-nos para falar do condomínio.
    Se necessário....

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  6. Bom dia,boa tarde, que dia tão bonito,que ventania faz lá fora e outras conversas que tais. E mainada. Até bem há pouco tempo, porque agora uns quantos, que souberam que eu estava doente, me perguntam pela saúde. Mas na verdade não me queixo, porque sei bem o que são maus vizinhos, numa breve experiência num prédio onde morei quando casei: até as lâmpadas do elevador roubavam! :P

    Beijocas

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  7. Para além dos vizinhos (da rua) que são família, há os vizinhos/amigos de longa data. Há também alguns que arrendaram casas desses primeiros vizinhos de que falei. Com estes não tenho muito relacionamento a não ser cumprimentos cordiais.

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  8. Carlos, sei que me considera embirrante, inoportuna, desmancha-prazeres e sei lá que mais...provavelmente, nem será o único a pensar assim, na blogosfera.

    Acontece que quando tenho a certeza de uma coisa - Ah, esta minha memória de elefante ainda vai ser o meu fim...- não desisto até provar que tenho razão.

    Vem isto a propósito do meu comentário em que fiz referência ao facto do Carlos não ter escrito que este artigo era " Reeditado!"

    De facto, há algumas alterações, mas a essência no que respeita à Celebração do Dia do Vizinho e à sua experiência com essa vizinha cusca, está aqui no CR, e olhe que já passaram seis anos...mas as pernocas dela continuam na mesma!!


    http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2009/05/dia-europeu-do-vizinho.html


    Não me leve a mal, sei que por vezes sou "intragável", mas também possuo algumas qualidades.

    Com consideração:

    Janita

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  9. O Carlos teve muita paciência com dita Sr.ª, eu se calhar tinha dito logo de chofre: «Mas o que é que a Sr.ª tem a ver com isso? Meta-se na sua vida!»
    Quanto aos meus vizinhos, conheço-os quase todos de cara, sou cordial e cortês, é Bom dia! Boa tarde! mas nada de entrar nas casas uns dos outros. E claro vejo-os nas reuniões de condóminos. Somos vizinhos e apenas isso, não somos amigos.

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