quinta-feira, 25 de junho de 2015

Retalhos da vida de um médico



Foi então que o médico, recorrendo a uma linguagem rebuscada e prenhe de intermezzos góticos, lhe comunicou que se não se submetesse à operação poderia patinar a qualquer momento.
O doente fitou-o nos olhos e  perguntou:
-Mas qual é a novidade, doutor?  Com a vida fui aprendendo que ninguém é dono do seu tempo e até o ser humano mais saudável, regrado, cauteloso e respeitador das mais modernas regras de educação alimentar,  pode abandonar esta vida em segundos.  E morrer com saúde, doutor, deve ser bem mais chato do que morrer de doença, não lhe parece?
O médico olhou-o com comiseração, encolheu os ombros e retorquiu:
-  A decisão é sua!
-Minha, doutor? Se a decisão sobre a morte  fosse de cada um de nós, o mundo  estava cheio de tipos com idade milenar . O doutor garante-me uma vida com qualidade se eu me submeter à operação?
- Não se preocupe, nós retalhamo-lo aqui, depois umas sessões de quimio e dentro de alguns meses está totalmente recuperado. Claro que terá que ser  mantido sob vigilância, mas tem grandes probabilidades de voltar a ter uma vida normal.
- Grandes probabilidades, doutor? Propõe-me que me sujeite a uma operação e, se dela sair vivo, me submeta a um tratamento doloroso cujos efeitos e consequências já tenho sobejo conhecimento. Tanto sofrimento para me tornar numa probabilidade que pode cair para qualquer lado da estatística?
O médico embatucou. Levantou-se da cadeira como convidando-o a retirar-se e disse:
-Há coisas que nenhum médico lhe pode garantir. Se não quer a cirurgia, nem fazer os tratamentos de quimioterapia, sou obrigado a respeitar a sua decisão. Limitei-me a dizer-lhe o que penso  sobre o que seria melhor para si.
-Se eu pudesse escolher  gostaria de andar por cá mais alguns anos, mas com qualidade de vida. Como  o doutor não me dá essa garantia  e não quero passar o resto dos meus dias a sofrer, aposto na roleta da sorte. Quem para cá me trouxe, que de cá me leve quando  lhe aprouver. Para quê ficar por cá se não me garante qualidade de vida?
Despediram-se com um cumprimento seco. O doente prometeu ligar na semana seguinte, sabendo de antemão que não o faria. Saiu mas, em vez de  procurar o caminho de casa,  telefonou  à companheira a sugerir um jantar.
Quando ela chega ao bar onde combinaram encontrar-se já emborcou dois whiskies.
Então que disse o médico?- pergunta ela
Tá tudo bem. Foi só um susto- responde com um sorriso que devolve a tranquilidade a ambos.
Jantam num restaurante de luxo, vão dançar a uma discoteca e, surpreendendo-a, ele propõe que façam duas semanas de férias. Ela hesita, porque não pode abandonar o trabalho assim do pé para a mão. Ele  insiste. Ela cede. O destino? Ele promete surpreendê-la.
 No dia seguinte, quando se levanta, vai à agência de viagens. Sabe que serão as últimas férias que passarão juntos.Compra duas viagens para o destino com que ela sempre sonhou. Regressa a casa feliz.


7 comentários:

  1. Curiosa a escolha, para título deste texto, de um romance de Fernando Namora!
    O doente era/é médico?
    Nesta etiqueta incluem-se os factos meio reais meio fictícios...

    Eu teria feito o mesmo que ele: Viver só vale a pena se se tiver qualidade de vida! Contudo..."Enquanto Há Vida..." Recorda-se deste filme?

    É deste tipo de crónicas que gosto nos seus blogues: retalhos da vida de pessoas comuns!!

    Janita

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  2. Isso é o que importa, o estatuto...enfim!

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  3. Profundo!
    E depara-mo-nos com decisões difíceis!
    Eu tenho uma para tomar o médico deu até ao dia 22 de Julho e, eu não sei que fazer :(

    Beijinho Carlos

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  4. Não o disse há pouco, mas voltei para dizer o seguinte: Um texto com esta dimensão humana, merecia uma escolha mais cuidadosa da imagem e respectiva legenda!

    Pronto, já disse!! Esse médico é muito insensível...e sem nenhuma noção de ética profissional!

    Já gostei um pouco mais do médico da narrativa, só por isso 'aceito' que os retalhos sejam da vida do médico e não do paciente....

    Janita

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  5. Acho o assunto muito interessante e concordo em absoluto com este paciente!
    xx

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  6. Faria o mesmo, com toda a certeza!

    Um texto que nos faz pensar.

    Beijinhos.

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  7. Quando li esta crónica, Carlos, não comentei porque sabia que é uma historia verdadeira.

    Eu que sempre adorei as suas crónicas, mas desta, embora profunda, não gosto mesmo nada.

    Mil beijinhos de amizade e até breve na nossa cidade invicta.

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