quinta-feira, 2 de julho de 2015

Mentira Piedosa


Almoço em passo de corrida, entre uma conversa com imigrantes de Leste e uma visita a uma comunidade cigana. Quando a adrenalina está no auge, porque as reportagens me empolgam e o prazo para entregar os trabalhos se aproxima do limite, o período que diariamente consagro ao almoço - sem hora certa mas com um generoso intervalo para saborear calmamente a comida, fumar a cigarrilha e, quando possível, cochilar * dez minutos – reduz-se drasticamente. Mal saboreio a comida e qualquer coisa me serve para enganar o estômago. (De tantas vezes se sentir enganado, por vezes revolta-se, mas isso é outra história).
Este mês, raras vezes tive o prazer de um almoço prolongado e, no dia a que se reporta esta CENA, o tempo foi de tal maneira exíguo que decidi aportar a um desses locais de comida a peso, onde normalmente se paga na razão inversa da qualidade. Sentei-me na companhia de um linguado deficientemente grelhado e uns legumes cozidos a vapor, sentindo a falta de um copo de vinho que abrilhantasse o elenco, prazer a que apenas me entrego, à hora do almoço, quando o palco é a minha casa.
Na mesa ao meu lado, sentou-se um distinto cavalheiro, na casa dos setenta. Reparei que olhava com enlevo para o seu prato, onde acamavam quatro suculentas fatias de picanha, bocados de banana frita, uma salsicha grelhada e uma generosa dose de batatas fritas, num apetecível bacanal gastronómico. Pressenti, no seu olhar guloso, a iminência do pecado. Suspeitei que aquela refeição não respeitasse os cânones dos seus hábitos alimentares. Olhando-o discretamente entrevi, por detrás das lentes grossas, o relato de uma fuga à prescrição médica, aconselhando evitar fritos e carnes vermelhas.
Terminado o linguado, pedi café. O telemóvel do cavalheiro tocou. Atendeu lesto.
- Só vim aqui comer qualquer coisa, vou já para aí. Não te preocupes, sabes que o médico está sempre atrasado.
Do lado de lá alguém lhe deve ter perguntado o que estava a comer.Sem hesitar, respondeu.
- Um linguadinho grelhado com legumes cozidos.
- …?
- Não, batatas não, sabes que não devo comer . Olha, vou desligar que estou com pressa.
Desligou. Olhou-me de soslaio. Fez sinal à empregada que dá apoio às mesas e pediu:
- Traga-me meia garrafinha de vinho, faz favor.
Atirou-se à picanha e às batatas fritas. Com prazer e sem remorsos. Bem haja!
* O computador informa-me que cochilar não existe. É um ignorante, coitado. Nem imagina como é bom passar pelas brasas a seguir ao almoço.

7 comentários:

  1. Porque será que o que sabe bem "dizem" fazer sempre mal ? e é verdade o computador não sabe o bom que é cochilar :)

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  2. "O fruto proibido"
    Talvez seja menos saudável viver na ansiedade do que quando em vez fugir às regras impostas!
    Não conheço o prazer de cochilar depois do almoço, nunca dormi uma sesta, nunca fui visitada pelo sono durante o dia.

    Boas férias Carlos e aproveite para cochilar (segundo o Rodrigo) é do melhor que se pode fazer :)

    Beijinhos

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  3. Ainda bem que ele se deu a esse pequeno luxo!
    Agora já deve ter voltado a irritante dieta...
    xx

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  4. Há mentiras que não prejudicam ninguém e fazem/sabem tão bem a quem as diz!!...

    Uma crónica que adorei ler e me fez sorrir! Soube-me tão bem...

    Oxalá tivesse tempo para deixar agendadas mais umas quantas deste género!

    Boa continuação...

    Janita

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  5. Vou confessar que gente que segue cegamente as instruções dos médicos, especialmente no que toca à comida e à bebida, me parece um pouco pobre de espírito. Mas pronto, também é verdade que se esse fulano fizer dessas todos os dias, provavelmente não melhora em nada os seus problemas de saúde... ;)

    Beijocas e continuação de boas férias! :)

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  6. Uns abusos, moderados, também são necessários.
    Fazem bem ao espírito
    Aquele abraço, bfds

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