segunda-feira, 6 de julho de 2015

Psicologia de Metro

Sento-me e coloco entre as pernas a pequena mala de fim de semana. A mulher sentada à minha frente olha-me de alto a baixo. Pressinto, pelo enrugar do rosto e um ligeiro menear de cabeça, um sinal de reprovação. Olho discretamente para baixo, a ver se tenho a braguilha aberta. Acontece aos melhores, mas comigo está tudo bem. Pego na revista e começo a ler.
Na paragem seguinte entra um jovem. É preto. Caminha ao ritmo da música que ouve no MP3 e generosamente partilha com os restantes passageiros do metro. Senta-se ao lado dela. 
A mulher olha-o uma…duas…três vezes. Cada vez que o olha, os seus lábios em forma de quarto minguante, cujas extremidades apontam em direcção ao baixo ventre encolhem-se, reduzindo o diâmetro  da boca. 
Ela não sabe que a observo, porque finjo ler, protegido pelos óculos escuros. De qualquer modo, nunca saberia o que estou a pensar, enquanto o metro perfura os túneis por onde me conduz ao destino desejado. 
Da primeira vez o olhar dela fixou-se na postura do jovem, sentado sobre uma das pernas, cabeça em constante movimento, para cima e para baixo, ao ritmo da música. Ela não deve ter gostado. 
Da segunda, fixou-se nos auscultadores de plástico azul e branco. Talvez tenha pensado “ foram comprados na Feira do Relógio. Se fossem giros e de boa qualidade eram gamados”. 
Da terceira e última vez olhou-o de alto a baixo, levou as mãos aos ouvidos, pressionou-os durante dois segundos com os indicadores, deixou escapar um esgar de desconforto e, ostensivamente, virou-lhe as costas, meneando a cabeça em sinal de reprovação. 
A sua nova posição permite-me observar-lhe melhor o perfil. Lança-me um olhar rápido pelo canto do olho. Talvez esteja a desafiar-me a adivinhar a sua idade. Aceito o desafio.
A base disfarça-lhe o vincado das rugas, mas não os pés de galinha. As sobrancelhas são finas, retocadas a lápis. Tem um ar pesado de quem já viveu muito e a expressão austera de quem está habituada a impor-se. 
Não é advogada, nem juíza. Nada a liga às leis, estou seguro. Aposto que é professora.
Detenho-me no vestuário. Casacão cinzento a  três quartos, assertoado, sobre uma camiseta branca com discretos bordados  que abre discretamente junto ao pescoço, de onde emerge uma écharpe estampada em branco, preto e cinza, animada por pequenos desenhos geométricos debruados a vermelho. A saia é preta e, quando se levantar, vai seguramente tapar-lhe por completo os joelhos. Um gorro de lã fina cobre-lhe os cabelos pintados num tom acobreado. Não usa aliança. Nem anéis.
Remato. De inglês! Penso um pouco melhor. De alemão?

14 comentários:

  1. Adorei. Por momentos, mergulhei intensamente nas palavras e parecia que eu estava lá :)

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  2. Alemão, claro!

    Tudo de bom, amigo

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    1. As profesoras de alemão também ensinam inglês, São!!

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  3. Adoro os teus texto...entranham-se , mas não se estranham...

    Alemão!

    Beijinhos.

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  4. Eu também caminho ao ritmo da música que ouço no meu MP3 e ... ensino a língua mais bela do mundo, que é a língua alemã.

    Qual foi o comentário que escrevi da primeira vez que li este texto, Carlos?

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    1. Txiiiiii, Teresa...não fizeste apenas um comentário!..

      Ora vê como ficaste brava e defendeste as mulheres alemãs com unhas e dentes! Credo!

      http://cronicasdorochedo.blogspot.pt/2012/03/psicologia-de-metro.html#comment-form

      ;-)

      Janita

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    2. Obrigada, minha querida Janita!
      Gostei imenso de ler os muitos comentários, que escrevi nessa altura, assim como as respostas aos mesmos.

      Nesse tempo, o Carlos e eu andavamos sempre como o cão e o gato.

      Eu tenho a mania de defender quem precisa de defesa: hoje no blogue da Graca defendi os PORTUENSES.

      Beijinhos de uma mulher do norte, sem papas na língua.

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  5. A sua raiva pela Alemanha, Carlos, não o deixa pensar até ao fim.

    Claro que a senhora é uma professora de religião.

    Continuação de boas férias e melhores encontros.

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  6. Ahahah, fartei-me de rir com o seu texto, mas também com os comentários... :)))

    Professoras de moral e religião existem muito poucas, Ematejoca, que a disciplina não é obrigatória já desde o meu tempo de liceu - e, tal como eu, cada vez menos alunos têm paciência para aturar professoras dessas, mais moralistas que religiosas... :D

    Beijocas a ambos!

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    1. A minha professora de moral e de religião era exatamente como a senhora do Metro descrita pelo Carlos.

      Beijocas para ambos, sem lições de moral.

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  7. Consegui imaginar a cena como se estivesse presente!
    Gostei muito.

    Beijinho Carlos, boa continuação.

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  8. Seria uma espia que não gosta de música??? :)))

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    1. Uma espia alemã, que não gosta de música... e amiga da Angie!

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  9. Achei um piadão à referência do casaco a três quatros e assertoado!! Isso era moda nos anos sessenta!
    Vai ver era professora de religião e moral e catequista nas hora vagas!... Afinal, não era só a senhora que gostava de observar as pessoas que estavam perto e traçar-lhes o perfil. As coisas que acontecem nos transportes públicos...verdadeiras orgias cusquistas!!!

    :)

    Janita

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