quinta-feira, 9 de julho de 2015

Uns amores de "jaquinzinhos"



Ele estava apaixonado por ela mas, cada vez que iam a um restaurante, sentia-se constrangido. Ela era vegetariana e ele um bom garfo, apreciador das coisas boas que a Mãe Natureza – alegava ele- tinha posto a circular no Universo, para gáudio dos estômagos humanos.
No início da relação ele procurara disfarçar o prazer da mesa, pedindo coisas simples e leves que sempre o deixavam com uma sensação de fome que aplacava na cama em voluptuosas noites de amor.A relação foi evoluindo, tornou-se mais aberta, até que um dia, quando celebravam um ano de namoro, apeteceu-lhe pedir uns belos rojões à minhota que o namoravam na lista cheia de iguarias tentadoras que lhe atiçavam o palato.
Prescindiu dos rojões, do arroz de pato anunciado como especialidade da casa, do polvo à lagareiro e de outros manjares igualmente apetecíveis, mas não resistiu ao apelo de uns jaquinzinhos acompanhados de um arroz de grelos malandrinho.
Estávamos em Maio, mês em que os jaquinzinhos são mais exuberantes na sua pequenez mas, antes de fazer o pedido, pediu ao empregado o "certificado" que justificasse o apelido dos peixinhos. 
Quando lhe trouxeram uma travessa com alguns exemplares fazendo jus ao nome, pressentiu o olhar reprovador da companheira, mas sentiu-se no direito de celebrar a data com algo que o satisfizesse mais do que uma pasta ou uns cogumelos gigantes recheados com beringelas.
Quando a travessa regressou à mesa, transportando uns jaquinzinhos morenaços e a saltitantes, começou a salivar. Ela olhou-o com desdém e disse:
-Pobres bichinhos! Como é possível gostares disso? Esses animais nem tiveram direito a viver…
Ele pegou-lhe na mão e respondeu:
- Minha querida! Sempre é melhor que eles acabem no meu estômago, do que intoxicados por um derrame de petróleo provocado pela BP, não achas?
Ela não achou graça. Ele olhou para a travessa e viu um jaquinzinho piscar-lhe o olho em sinal de aprovação.
Nessa noite, quando fizeram amor, ele não ouviu o estralejar de foguetes. Nem no dia seguinte. Nem no outro. 
Seis meses depois, no mesmo restaurante, celebrava a data com outra namorada. Ele comeu rojões à minhota e ela afiambrou-se com um pernil. Acompanharam com uma garrafa de Quinta de La Rosa. Depois fizeram amor de empreitada mas, passados alguns minutos, cada um dormia para seu lado.
No dia seguinte, ele telefonou à antiga namorada.
-“ Posso convidar-te para jantar? Prometo que só como um “spaguetti al vongole”
Ela aceitou. Já os primeiros raios de sol dardejavam a janela do quarto quando adormeceram. Lá fora estralejavam foguetes.

8 comentários:

  1. Eu acho que não voltaria,,,,


    Bom apetite, amigo

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  2. O poder do amor VEGETARIANO!!!...com direito a segundo prato de ...

    Beijinhos.

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  3. A vegetariana lá teria algo mais apetecível, do que a namorada companheira do mesmo gosto gastronómico!! Nem sempre se conquista um homem pelo estômago, principalmente quando, após fazer amor, - ainda por cima de empreitada - cai, cada um, para o lado a dormir...digo eu, Sei lá!!

    Enquanto se ouvirem estralejar foguetes..é porque a festa continua!!

    Boa continuaçõm.

    Janita

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  4. ....Recaída! Ninguém saberá se valeu a pena!
    xx

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  5. Costuma dizer-se que é pelo estômago que se conquista um homem.
    Aqui foi ao contrário - ele é que se rendeu aos gostos dela.
    Até Agosto!

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  6. E continua a não haver um manual, mas mesmo sem ele há uma coisa que ao longo da vida eu aprendi, o respeito, nada como respeitar a vontade (neste caso os gostos) dos outros!

    Beijinho Carlos e boa continuação.

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