quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lamechices de criança no dia do seu 1º aniversário

A minha mãe faleceu em setembro do ano passado.
No dia do seu funeral, o hospital informou-me  que seria operado no dia 27 de Outubro, dia em que ela completaria 100 anos. Não há coincidências...
Hoje,logo pela manhã, assinalei o seu 101º aniversário da forma que ela gostava.
Depois agradeci aos drs Jorge Paulino e Edite Filipe que me operaram e acompanharam no Curry Cabral, terem-me  devolvido a esperança, graças ao trabalho competente que fizeram. Levei uma caixa de bombons à extraordinária equipa de enfermagem que me tratou.
No caminho, lembrei-me  de uma recente crónica de António Lobo Antunes em que ele admitia que para além do trabalho e dedicação extraordinária da equipa médica e de enfermagem, sentia que algo (alguém?) o protegera durante o período em que a sua vida esteve em risco. Dei-lhe razão.
Acredito, sem  quaisquer reticências, que para além do extraordinário trabalho dos médicos e da equipa de enfermagem do Curry Cabral, estive sempre protegido por algo que não sei definir, mas onde se inclui a minha Mãe.  Esteja ela onde estiver, esteve a cuidar de mim naquele período difícil da minha vida.
Hoje à noite vou assinalar com um jantar a dois o 1º aniversário desta minha segunda vida. Lembrarei, obviamente, o 101º aniversário da minha Mãe mas, acima de tudo,  quero agradecer-te tudo o que fizeste para eu desejar ardentemente ter esta segunda vida e querer vivê-la, por inteiro, na tua companhia.
Talvez seja uma vida curta e não tenha tempo para chegar à Universidade, mas o importante é que enquanto ela durar eu possa continuar a dizer:
Obrigado, meu amor!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Uma viagem longe demais



Não sei precisar onde estava no dia 24 de Outubro de 1956  mas, não sendo  fim de semana, devo ter estado na escola até às 15 horas  a aprender o bê -a- Bá, apesar de já conseguir ler  as "gordas" do Primeiro de Janeiro e do JN, os jornais que diariamente chegavam lá a casa pela manhã. (Ao fim da tarde o meu pai trazia o vespertino Diário do Norte que não me atraía particularmente).
Presumo que a minha Mãe tenha providenciado um jantar melhorado, eu tenha recebido algumas prendas, falado sem entusiasmo da minha festa de aniversário e os meus irmãos mais velhos estivessem  excitadíssimos a "divagar" sobre naves espaciais e viagens à Lua, a Marte e a outros lugares que me soavam estranhos. Diga-se, em abono da verdade, que estas aventuras nunca me atraíram particularmente durante a infância e juventude, porque  sempre me soaram a ficção científica e eu era mais terra a terra. 
Ou seja: na inocência vulgar da minha meninice pensava que a vida era amor, sorrisos, muita paz e concórdia, paixão pela professora que ia lá a casa dar explicações de matemática aos meus irmãos,o prazer do reencontro anual com a minha prima Branca ( ela e os pais falavam uma língua que no início sempre me custava entender, mas  na véspera de ela regressar a Porto Alegre já me parecia português) a felicidade a rodos corporizada numa vida  com a Teresa, uma vizinha que usava óculos de lentes grossas, por detrás dos quais eu descortinava os olhos mais bonitos da cidade. 
Quando os meus irmãos lhe chamavam "caixa de óculos" em surdina para me irritarem, eu reagia com  raiva e para me vingar respondia:
"A Teresinha tem óculos para ver os marcianos que são amigos dela. Um dia vamos casar e eu vou com ela para Marte e vocês  ficam cá cheios de inveja a ler revistas e a pensar como será Marte, mas eu não vos vou dizer, nem mandar postais". 
Depois, enquanto eles riam, eu rebentava num vale de lágrimas e refugiava-me na sala a ver os peixes nadar no aquário. Quando um limpa fundos se aproximava do vidro para cumprir a sua tarefa, eu acreditava que ele vinha escutar-me. Deixava que as minhas lágrimas se misturassem com a água do aquário e então confessava-lhe as minhas penas e contava-lhe os meus dramas, ciente de que aquele constante mexer de lábios significava concordância com os meus argumentos e repúdio pela atitude dos meus irmãos.
Sessenta anos depois daquele dia 24 de Outubro, no meu primeiro aniversário de estudante ( que os meus pais certamente fizeram questão de assinalar de forma especial, dizendo que já era um homenzinho) não tenho cá  os meus irmãos para lhes   dizer como  me aborreciam aqueles entusiasmos deles  com o Júlio Verne ( que viria a venerar mais tarde, obviamente)  as conversas sobre naves espaciais e os livros do Zorro e do Condor.Ou como me feriam as suas críticas à Teresinha e os meus desabafos com o limpa fundos.
Depois de a minha Mãe ter partido ano passado, cansada de viver, sou o único sobrevivente de uma família já então considerada numerosa.  Não tenho, por isso, ninguém a quem contar as minhas angústias naquele dia 24 de Outubro de 1956. Por isso as partilho aqui com vocês:
Seis décadas não é nada  em tempo cosmológico. Como é possível que neste curtíssimo espaço de tempo, a ficção da ida a Marte ao encontro de uns homúnculos pequeninos e verdes, com umas antenas a servir de radar, se tenha transformado numa realidade tão próxima, que até já estão a ser construídas naves  com capacidade para cerca de 200 passageiros para levar turistas ao mítico planeta em meados dos anos 20? Como eu gostava de saber se as marcianas também são verdes! 
Será que "a minha viagem" irá durar tempo suficiente para eu saber?
Talvez a Teresinha, que partiu tão cedo desta vida, já tenha chegado a Marte e saiba a resposta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um passeio no Douro Internacional

Se bem se lembram, no último post ficámos em Bragança. Prometi um regresso para vos falar de um jantar muito especial. Irei fazê-lo por estes dias, mas hoje apeteceu-me escrever sobre este passeio no Douro Internacional, entre o Pinhão e Barca de Alva.


Um passeio sem palavras, para não estragar a paisagem...

Em jeito de sugestão para um fim de semana diferente














Espero que tenham gostado e as fotografias vos tenham motivado a fazer este magnífico passeio.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

De noite (nem) todos os gatos são pardos

 Chegámos a Bragança a meio da tarde, com a temperatura a rondar os 40º.  Os corpos pediam  um banho na piscina e não um passeio pela cidade. Aliás, estivera em Bragança há pouco mais de um ano  e não via razões para desgastar ainda mais o corpo àquela hora do dia.   
A capital transmontana é  tristonha, a sua beleza  não é irresistível mas para quem está  quase duas semanas em Trás os Montes, uma visita é  incontornável. 


Quanto mais não seja, para  conhecer  um casal  muito especial e refeiçoar  no seu restaurante... Mas sobre isso  escreverei um post noutro dia.


Deixámos então para depois do jantar tardio o passeio pela cidade


E à noite, em Bragança, o destino é o castelo, pois é aí que reside a animação. E não só...

Pelo caminho até encontrámos uma caixa de correio improvisada. Um gato acompanhou-nos e nunca até à entrada do Castelo mas, no momento em que me preparava para o fotografar com o telemóvel, fugiu e nunca mais lhe pusemos a vista em cima


 Dentro das muralhas, há bares e restaurantes com  fartura. O Zé Tuga deospertou-me especialmente a atenção....

Sem máquina fotográfica, a reportagem foi feita com telemóvel, daí que não haja testemunho da passagem por ruas pouco iluminadas. Ainda assim, regressado à Pousada, ainda deu para tirar mais esta foto em jeito de testemunho.
Como já referi, voltarei em breve a Bragança para vos dar testemunho de uma bela experiência que merece ser vivida por quem lá for. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Lisa e o pescador

Se eu tivesse sabido desta história há mais tempo, teria surpreendido aquele casal alemão que conheci em Chaves, de que vos falei no post anterior.
(Vale a pena seguir o link, para conhecer a história...)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Inferno em Trás os Montes

Fizemos a viagem entre Vila Real e Chaves ao princípio da tarde de um dia de calor intenso em que a região parecia um braseiro.  
Saímos de Vila Real ainda com o céu esplendorosamente azul mas, percorridos menos de 20 quilómetros, o fumo começou a tapar o sol e o azul deu lugar a um cinzento ameaçador. No trajecto até Chaves vimos mais de 20 focos de incêndio como este. Prova evidente de fogo ateado por mãos criminosas. Porventura, por alguém que na véspera um juiz bondoso tenha mandado em paz

Quando chegámos a Chaves o sol tinha desaparecido por completo, ofuscado pelo fumo dos incêndios. O calor sufocante desafiou-me para um banho na piscina do Hotel do Forte de S. Francisco, onde decidimos pernoitar.

 
Quando saí da piscina fui abordado por uma senhora alemã ansiosa por notícias sobre o incêndio.Perguntou-me insistentemente se a cidade corria perigo. Estava visivelmente assustada, até porque pela manhã estivera no Gerês e, no caminho de regresso a Chaves, vira o início do grande incêndio de Arcos de Valdevez. Procurei tranquilizá-la mas horas depois (ao jantar) e à noite, quando regressávamos ao hotel depois de um passeio nocturno pela cidade, assim que nos via, perguntava se  estávamos em segurança.
Respondi-lhe que não havia problema, que dormisse tranquila e desfrutasse as férias.


 Na manhã do dia seguinte constatei que os meus esforços tinham sido em vão. Assim que me viu, lá veio a pergunta.  E na verdade, ao ver este manto de fumo a pairar sobre Chaves, era natural que a senhora tivesse medo.

Pensávamos partir de manhã cedo para Pitões das Júnias  mas, perante o ar aflito da senhora,decidi praticar uma boa acção e  convidar o casal para uma visita ao centro histórico.


Quando o ar se tornou mais respirável e o fumo parecia começar a dissipar-se, abalámos.Deu-me um enorme prazer ver o ar encantado com que ambos percorriam as ruas, admirando com uma paixão semelhante à minha os encantos desta bela cidade.


Quando ao princípio da tarde nos despedimos estavam visivelmente mais tranquilos.

No dia seguinte telefonaram-me a dizer que de tarde tinham feito uma visita à cidade no comboio turístico mas o fumo voltara a descer sobre a idade, tornando o ar irrespirável


À noite aventuraram-se a trocar a sala de jantar do hotel


por um restaurante no centro histórico.
Queriam, no entanto, voltar ao local onde eu os levara a comer os melhores pastéis de Chaves de Tras os Montes, pelo que pediam que os orientasse. 



Embrenhado no Parque de Montesinho, sem grande paciência para explicações, sugeri-lhes que fossem ao posto de turismo e perguntassem onde ficava a Maria

Ou, então, que seguissem o odor das flores, pois elas os levariam até à Maria.
Não sei qual a opção que tomaram, mas enviaram-me um SMS a dizer que tinham comprado meia dúzia  de pastéis e uns enchidos para comerem durante a viagem até Lamego. 
Devem ter chegado lá em bom estado, devem... Refiro-me aos alemães, não aos pastéis de Chaves, obviamente...

domingo, 2 de outubro de 2016

Céu de Outono



Hoje devia ter continuado a viagem transmontana mas, perante este céu deslumbrante que via da varanda de minha casa, na praia do Tamariz, não resisti a  partilhar este cenário com os leitores do On the rocks.
Aproveito para agradecer as palavras amigas que deixaram na caixa de comentários destes dois primeiros posts. Prometo responder a cada um individualmente, logo que me seja possível.
Na terça feira a viagem prossegue por Trás os Montes. A caminho da bela cidade de Chaves.