segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Uma viagem longe demais



Não sei precisar onde estava no dia 24 de Outubro de 1956  mas, não sendo  fim de semana, devo ter estado na escola até às 15 horas  a aprender o bê -a- Bá, apesar de já conseguir ler  as "gordas" do Primeiro de Janeiro e do JN, os jornais que diariamente chegavam lá a casa pela manhã. (Ao fim da tarde o meu pai trazia o vespertino Diário do Norte que não me atraía particularmente).
Presumo que a minha Mãe tenha providenciado um jantar melhorado, eu tenha recebido algumas prendas, falado sem entusiasmo da minha festa de aniversário e os meus irmãos mais velhos estivessem  excitadíssimos a "divagar" sobre naves espaciais e viagens à Lua, a Marte e a outros lugares que me soavam estranhos. Diga-se, em abono da verdade, que estas aventuras nunca me atraíram particularmente durante a infância e juventude, porque  sempre me soaram a ficção científica e eu era mais terra a terra. 
Ou seja: na inocência vulgar da minha meninice pensava que a vida era amor, sorrisos, muita paz e concórdia, paixão pela professora que ia lá a casa dar explicações de matemática aos meus irmãos,o prazer do reencontro anual com a minha prima Branca ( ela e os pais falavam uma língua que no início sempre me custava entender, mas  na véspera de ela regressar a Porto Alegre já me parecia português) a felicidade a rodos corporizada numa vida  com a Teresa, uma vizinha que usava óculos de lentes grossas, por detrás dos quais eu descortinava os olhos mais bonitos da cidade. 
Quando os meus irmãos lhe chamavam "caixa de óculos" em surdina para me irritarem, eu reagia com  raiva e para me vingar respondia:
"A Teresinha tem óculos para ver os marcianos que são amigos dela. Um dia vamos casar e eu vou com ela para Marte e vocês  ficam cá cheios de inveja a ler revistas e a pensar como será Marte, mas eu não vos vou dizer, nem mandar postais". 
Depois, enquanto eles riam, eu rebentava num vale de lágrimas e refugiava-me na sala a ver os peixes nadar no aquário. Quando um limpa fundos se aproximava do vidro para cumprir a sua tarefa, eu acreditava que ele vinha escutar-me. Deixava que as minhas lágrimas se misturassem com a água do aquário e então confessava-lhe as minhas penas e contava-lhe os meus dramas, ciente de que aquele constante mexer de lábios significava concordância com os meus argumentos e repúdio pela atitude dos meus irmãos.
Sessenta anos depois daquele dia 24 de Outubro, no meu primeiro aniversário de estudante ( que os meus pais certamente fizeram questão de assinalar de forma especial, dizendo que já era um homenzinho) não tenho cá  os meus irmãos para lhes   dizer como  me aborreciam aqueles entusiasmos deles  com o Júlio Verne ( que viria a venerar mais tarde, obviamente)  as conversas sobre naves espaciais e os livros do Zorro e do Condor.Ou como me feriam as suas críticas à Teresinha e os meus desabafos com o limpa fundos.
Depois de a minha Mãe ter partido ano passado, cansada de viver, sou o único sobrevivente de uma família já então considerada numerosa.  Não tenho, por isso, ninguém a quem contar as minhas angústias naquele dia 24 de Outubro de 1956. Por isso as partilho aqui com vocês:
Seis décadas não é nada  em tempo cosmológico. Como é possível que neste curtíssimo espaço de tempo, a ficção da ida a Marte ao encontro de uns homúnculos pequeninos e verdes, com umas antenas a servir de radar, se tenha transformado numa realidade tão próxima, que até já estão a ser construídas naves  com capacidade para cerca de 200 passageiros para levar turistas ao mítico planeta em meados dos anos 20? Como eu gostava de saber se as marcianas também são verdes! 
Será que "a minha viagem" irá durar tempo suficiente para eu saber?
Talvez a Teresinha, que partiu tão cedo desta vida, já tenha chegado a Marte e saiba a resposta.

26 comentários:

  1. Um Grande Abraço de Parabéns, amigo Carlos !!! ... e por muitíssimos anos ! :))

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    1. Obrigado, Rui. E que o meu amigo esteja por cá para me poder enviar os parabéns. Grande abraço

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  2. Lindíssima recordação em tom melancólico.
    O menino sensível cresceu e hoje sinto-o triste, quando devia estar feliz.
    Parabéns, Carlos.

    Beijinhos.

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    1. Não é triste, amiga. Apenas nostálgico nesta semana difícil para mim.

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  3. Parabéns!
    (gosto de pensar que de alguma maneira os que partem ainda nos podem ouvir)
    um beijinho
    Gábi

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  4. Comovente! Parabéns Carlos, felicidades com saúde, paz e amor.

    Um beijinho

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  5. Eu também sou a benjamim da família... mas ao contrário do que aqui nos contas, eu era super-protegida e os meus irmãos mais velhos não me faziam essas tropelias. Pelo contrário, com eles cultivei-me e aprendi a conhecer e a gostar de coisas que os meus amigos que eram da minha idade nem sequer conheciam.

    Apesar de ter lido esta crónica, tenho de admitir que a Elisa tem razão: nada de nostalgias! Hoje é dia de falar em tudo o que está por vir! :)

    Cheers!
    (^^)

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    1. *Apesar de ter gostado de ler esta crónica* (era isso que queria dizer!)

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    2. Obrigado, Afrodite. Esta é uma semana muito difícil para mim

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  6. Sei que faz anos a 24 de Outubro, Carlos, mas venho atrasada meia hora. Não é muito, pois não?
    Para quem em tempos não gostava de receber parabéns, deve compreender que lapsos acontecem.
    Gostaria de ter aqui chegado mais cedo, mas agora é tarde e voltar atrás, não é possível
    Que para o próximo ano o possa parabenizar atempadamente.

    Um abraço e que seja muito feliz durante muitos e muitos mais 67. :)

    Ah, não li a crónica, mas prometo que amanhã virei ler.

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    1. Espero que já tenha lido, Janita.
      O último ano mudou um pouco a minha relação com o meu aniversário, mas continuo a não celebrar...

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  7. Simplesmente lindo o que aqui escreveu, Carlos.
    Emocionante, meu caro.
    Grande abraço!

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  8. Embora seja do meu conhecimento o dia do seu aniversário, meu querido amigo, chego um dia mais tarde para lhe desejar muitas felicidades e muitos anos de vida.

    Uma crónica que me comoveu e me levou ao meu tempo de Teresinha (sem óculos), mas também sua vizinha.

    Mil beijinhos de parabéns da sua amiga tuga, mas muito sua amiga, Carlos.

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    1. Os amigos nunca chegam tarde, Teresa
      Quanto à vizinhança refere-se à blogosfera, ou ao mundo real?

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    2. Ao mundo real. Eu vivi com os meus pais nas Antas.

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    3. Quer ver qu um dia ainda vamos descobrir que nos conhecemos? Onde é que vivia nas Antas, Teresa?

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  9. Provavelmente as marcianas usam óculos, uns óculos especiais que lhes permitem ver os humanos e ler emocionadas esta crónica de aniversário.
    Parabéns!

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    1. Uma lágrima rolou pelo rosto da Teresinha ao ler esta crónica, lembrando-se com saudade do amigo de infância.

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  10. Carlos, disse que não tem ninguém a quem contar, porém,
    contou-nos e sinto-me privilegiada por isso...
    Talvez seja a razão de um facto para mim intrigante: a
    razão pela qual faz postagens de um modo quase obsessivo,
    bem sei que também é deformação profissional...
    Eu pensava que andava em lua de mel...
    Que se repitam por longos anos na nossa companhia...
    AMIGO, MUITOS PARABÉNS!
    GRANDE ABRAÇO.
    ~~~~~~~~~

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  11. Eu tenho andado quase toda a vida em lua de mel, MAJO :-) Só que agora estou em fase de Lua Cheia...
    Quanto às postagens, são deformação profissional, mas também uma grande vontade de comunicar. Obrigado e um abraço também para si, Majo.

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