quinta-feira, 25 de maio de 2017

Berlim: a cidade dividida



Ao terceiro dia de Berlim confirmei  que  a localização  do hotel tinha sido uma escolha acertada. Além de a centralidade de Alexanderplatz ser uma mais valia, a animação e a variada oferta de transportes fazem da praça imortalizada por Alfred Doblin um local privilegiado. 
Acresce que é na zona leste da cidade que Berlim é mais vibrante ( especialmente depois do horário laboral) e eclético nas propostas que oferece aos berlinenses e aos turistas que a visitam.  Nos bairros de Preuzenberg  e no antigo bairro judeu a animação é constante.
Neste último destaco as casas de chá e as inúmeras galerias de arte sempre apinhadas de gente de sexta a domingo.  As noites também são vibrantes. Começam com uma refeição em Hackesher Markt  e estendem-se por todo o bairro, especialmente nos bares, clubes de Jazz e também restaurantes que proliferam por todas as ruas e em alguns pateos que, pela sua beleza, merecem uma visita demorada também durante o dia.
Por outro lado, é na zona leste que o dia  é mais calmo. Menos comércio e zonas residenciais aprazíveis convidam ao relaxamento  e ao  aproveitamento da vida ao ar livre.

Na zona ocidental da cidade, especialmente na comercial  Ku’damm e em Potsdam Platz  a vida é mais frenética durante o dia. Mesmo assim, longe do reboliço de Londres, Roma, Madrid, ou Lisboa. Considerei esse facto muito positivo e também demonstrativo de que os alemães sabem viver a vida melhor do que se pensa.  
Não é para mim novidade que os alemães ( como os povos de quase todos os países da Europa Central) traçam de forma muito clara a fronteira entre trabalho e lazer, aproveitando ambas nos seus espaços próprios, sem ( quase) dar espaço a intrusões. Há, nesse aspecto, uma diferença abissal entre eles e os europeus do sul, mais caóticos e desorganizados, misturando bastas vezes “trabalho com cognac”.
(Durante o dia, ou à noite,
Potsdam Platz é a nova centralidade de Berlim.


 Especialmente na Praça Sony, onde as pessoas jantam, petiscam, bebem conversam vão ao cinema ou simplesmente se deixam estar a ver o tempo passar)
Reconheço que me agrada mais a forma de  vida latina, mas não nego as vantagens do modelo da Europa Central. Não sei se é mais produtivo ( não é esse o  meu padrão de vida) mas é mais adequado ao clima e eu próprio me adaptei bastante bem a esse modelo quando vivi em países anglo saxónicos. 
Só que a exuberância do  sul, com o apelo do mar e da vida ao ar livre proporcionados por um clima excepcional, tornam os latinos mais exuberantes. Não arrisco é dizer que são mais felizes. 
É que-sou obrigado a reconhecê-lo- não fui infeliz quando estudei/trabalhei em Inglaterra, na Suíça, na Suécia ou na Jugoslávia, mas fui incapaz de ficar a viver na Suécia, porque para mim a vida tem de ter luz do sol durante todo o ano. Ter quatro ou cinco horas de dia no Inverno e apenas três horas de noite durante o Verão convidam a excessos e tornam as  pessoas mais desequilibradas emocionalmente. 
Esse desequilíbrio manifesta-se há décadas na tendência para que quase toda a gente se embebede ao fim de semana, depois de suportar cinco dias nos locais de trabalho, numa vida muito sem graça.  ( Eu sei que a moda já chegou aos países do sul, mas vejo isso como mais uma cedência dos povos do sul aos costumes nórdicos)

Bem, mas voltemos a Berlim e ao meu encantamento com a Karl Marx Allee e toda a zona circundante, que os berlinenses ocidentais estão a procurar para viver. Por ser mais barato, mas também mais tranquilo.
Poderia aqui destacar, também,  a  adesão dos berlinenses à bicicleta e  tecer-lhes um elogio por terem compreendido que a bicicleta dá qualidade de vida a quem a utiliza, mas também a quem. habita na cidade mas hoje, neste postal de Berlim, queria terminar com uma nota de desagrado. É que não gostei nada de ver a forma como os berlinenses retratam e registam para memória futura, o modo de vida na Alemanha de Leste, durante os tempos da Guerra Fria. 

Se compreendo  isso  em locais como o museu de Check Point Charlie ( a propaganda ocidental conta a História à sua medida) foi com bastante repugnância que  saí do DDR Museum.  Ali se apresenta aos turistas de uma forma distorcida ( chegando ao ponto de ridicularizar  e por vezes mesmo mentir) a forma como viviam os alemães de Leste. 
Mas sobre isso escreverei num dos próximos postais.
( Continua)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Berlim, Alexanderplatz (2)



Estivesse eu a viver na Europa em Novembro de 1989 e teria corrido para Berlim a tempo de ver o desmoronar do muro que dividia a Europa. Teria tirado algumas fotos, improvisado a selfie possível naquela época, com a Yashica recém comprada em Hong Kong e atravessaria o muro  pela porta de Brandenburgo. Depois desceria a vetusta avenida  Unter den Linden e precipitar-me-ia para Alexanderplatz, a praça de Berlim que não me saía da cabeça, desde que lera o belíssimo romance de Alfred Doblin.
Por essa época, porém, eu vivia em Macau e o distanciamento, em vez de me aguçar o desejo de correr para Berlim, permitiu-me racionalizar o que estava a acontecer a 13 mil quilómetros de distância.

Enquanto o muro se desmoronava, na madrugada e manhã berlinense, eu estava em Macau ( 7 horas mais tarde) em casa de um casal amigo  e tracei um cenário do que  acreditava poder suceder no prazo de uma ou duas décadas à Europa e ao mundo.  Só o Valmiki, a Ana e mais dois ou três amigos que estavam presentes e estupefactos perante a minha visão catastrofista, poderão testemunhar  tudo aquilo que eu disse nessa tarde e noite ( e  mais tarde escrevi parcialmente nas páginas da Tribuna de Macau) e confirmar que as minhas previsões infelizmente bateram certas.
Não sou adivinho, nem fui visitado por  uma entidade divina que me proporcionou uma visão do futuro . Bastou-me  trabalhar toda a informação armazenada  no meu cérebro ao longo de décadas sobre as divergências  entre o mundo ocidental e a Europa de Leste, para perceber  em alguns minutos, que o mundo acabava de assistir à vitória da Internacional Consumista, sobre a Internacional Comunista.  
A queda do muro de Berlim  não foi  apenas o fim de uma barreira física entre Leste e Ocidente. Foi  o desmoronamento do império soviético, à época a última barreira à hegemonização do “ american way of life” à escala global. Foi  o início da guerra pelo pensamento único, uma espécie de Cruzadas  do século XX, onde os Cruzados tinham por missão impor a democracia, como uma Nova Fé, mesmo que essa não fosse a vontade dos povos “libertados” ( A Primavera Árabe foi apenas um exemplo).

Naquela tarde pareceu-me muito claro que mais cedo do que tarde iríamos  viver numa Europa de pensamento único,  onde a informação discretamente emanada da Casa Branca seria “a verdade” ( menos de dois anos depois a primeira guerra do Iraque seria o primeiro sinal) a economia  e os mercados financeiros se globalizariam com base nas teorias liberais, dando azo ao triunfo da hegemonia do indivíduo ( que então chamei sociedade do Eu Lda)   sobre os valores colectivos.  
Lembro-me de o Valmiki, militante do PCP,  incrédulo com a minha “dissertação” me ter dito nessa tarde:
“Espero que estejas enganado, porque se isso tudo que dizes se concretizasse, iríamos regressar ao fascismo”.
Pois é, meu caro Valmiki.  Ambos tínhamos razão, mas afinal tu ainda eras mais pessimista do que eu. Só que não sabias!
Aqui chegado, acredito que a maioria dos leitores já tenha abandonado a leitura do post e que os resistentes estejam a perguntar-se “ a que propósito vem isto?”.
Na verdade serve apenas para justificar a razão por que só este ano fui a Alexanderplatz. Facto que vos pode parecer ainda mais estranho, se vos disser que já tinha estado duas vezes em Berlim, em trabalho, mas nunca tinha ido além das portas de Brandenburgo. 

Ao longo dos anos – e à medida que era mais visível o triunfo do pensamento único e o domínio da economia sobre a política- o meu interesse em voltar a Berlim e  visitar Alexanderplatz foi esmorecendo.
Na verdade, cresci  com um sentimento anti-alemão ( nada tem a ver com o povo, mas sim com o regime) fundamentado em factos indesmentíveis: a Alemanha provocou duas guerras mundiais. Depois da queda do muro de Berlim, percebi que seria uma questão de tempo até desencadear a terceira. 
Continuo a não ter dúvidas de que isso irá acontecer, mas senti que tinha de ir a Berlim antes de morrer, nem que fosse apenas para guardar na memória uma imagem de Alexanderplatz.
E foi assim que , quase dois anos passados sobre a descoberta da minha doença, decidi ir a Berlim. Apenas tinha uma certeza: queria ficar hospedado num hotel em Alexanderplatz. E assim foi.
Inicialmente tinha planeado ficar apenas 4 ou 5 dias e dar um salto a Hamburgo, Dresden e Leipzig.

No dia em que cheguei ( um domingo), fui passear por Karl Marx Allee e senti que poderia viver naquela zona ou em Prenzlauerberg o resto da vida. De descoberta em descoberta, de memória em memória, entre encantamentos e decepções fui ficando e, ao fim dos  11 dias, apenas tinha  saído de Berlim  uma vez, para visitar Potsdam. 
(Continua)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Berlim, Alexanderplatz



Nota prévia: com excepção da Argentina, não tenho por hábito escrever sobre as minhas viagens. Às vezes um apontamento ou outro e nada mais.
Abro uma excepção a Berlim, pela estima que me merece a boa amiga Teresa, a quem dedico estes posts 

Lembro-me bem da primeira vez que estive em Berlim. Era uma tarde de setembro de 1963 pesada como chumbo. À medida que íamos adentrando a cidade, as nuvens  tornavam-se mais carregadas e ameaçadoras, deixando antever que a qualquer momento rebentariam num vale de lágrimas. 
Aconteceu quando estávamos mesmo o chegar ao hotel, pelo que atribuímos o mau humor e os maus modos do jovem que veio ao carro ajudar na tarefa de carregar as malas, a uma zanga momentânea com S. Pedro, que não nos livrou de uma boa molha.
Erro de análise colectivo. 
No restaurante ( biergarten) que o meu cunhado escolheu para jantar fomos igualmente mal recebidos e o ambiente contrastava, de forma quase deprimente, com a alegria que encontráramos ( e fôramos convidados a partilhar) noites antes em Munique. 
Lembro-me de o meu cunhado, durante o jantar, ter justificado aquele mau humor com as medidas impostas à Alemanha no pós guerra e ter aludido  a um muro mandado construir dois anos antes pelos comunistas. Constatei que falara em voz baixa, quase em surdina, mas como já nessa altura sabia que se devia  falar sempre baixo nos cafés, restaurantes e outros locais públicos, para evitar  os esbirros da PIDE, acreditei que na Alemanha se passaria o mesmo e não dei importância.  Fiquei sim a matutar como é que um muro podia deixar as pessoas tão mal dispostas. 
Eu vivia nas Antas, paredes meias com os Cepeda, uma família proprietária de metade dos  terrenos  do bairro que também mandara erguer um alto muro à volta da casa  para que ninguém pudesse perscrutar o que lá se passava. Claro que aquele muro amarelo com rebordo branco ( que ainda há um ano existia) me despertava para o devaneio e um dia, incapaz de conter a curiosidade, aproveitei a ausência da minha Mãe e subi ao telhado de minha casa com um primo para tentar ver como era a vida em casa dos Cepeda.
Debalde. A única coisa que retirei dessa aventura foi um severo castigo. A senhora Ana, dedicada cozinheira e sempre zelosa na protecção do “seu menino” entrou em pânico quando me viu no telhado e começou aos gritos no jardim despertando a atenção da vizinhança que por acaso era toda família e uma tia minha, muito devota, assomou à janela. Logo que viu o espectáculo começou a pedir a ajuda de todos os santos para que nos fizessem descer, mas tivemos mesmo de descer pelos nossos próprios meios e sem conseguir descobrir o que se passava para além do muro da casa dos Cepeda.  Apesar de devota, a minha tia não foi nada clemente e contou tudo à minha Mãe assim que ela chegou a casa e eu fui proibido de praticar as minhas habilidades futebolísticas no quintal durante pelo menos uma semana.
(Desculpem os leitores este desvio. Esclareço  que em 1963 tinha apenas 13 anos, ainda não conhecia a minha amiga Petra W., sabia pouco de História e nada sobre o pós guerra e as intrincadas negociações de paz que se lhe sucederam e culminaram na divisão da Alemanha, primeiro, e da cidade de Berlim depois)
 Regressemos então a Berlim. 
Estive muito atento às explicações do meu cunhado sobre o mau humor dos berlinenses e não me manifestei durante o jantar mas, logo que chegámos ao hotel, assim que entrámos no quarto, desabafei com o meu irmão:
- Como é que o O. pode dizer que a culpa é do muro? Que disparate! Nós também temos um muro em frente a casa e não andamos mal humorados como eles.
O meu irmão olhou-me com ar de quem está a ouvir um imbecil ( e se calhar tinha razão), explicou-me que  o muro separava a cidade em dois e por isso havia muitas famílias que tinham ficado separadas de um dia para o outro. Aí chegados, fiquei esclarecido.  E estarrecido. O que seria de mim se construíssem um muro no Porto e eu deixasse de poder ver o mar, ou passear da Ribeira até à Foz? Esses comunistas deviam ser uns bandidos e a partir desse dia passaria a odiá-los.
Depois  deu-me uma lição de História que me deixou muito impressionado e foi determinante para eu me ter apaixonado pelo estudo da História Universal, devorando livros que me abrissem os olhos para o mundo.
(Não demorei muito tempo a perceber que as histórias do meu irmão sobre os comunistas eram manifestamente exageradas, fiz as pazes com Marx, Engels e Lenine e concluí, sem grande esforço, que os livros de História que nos impingiam no liceu só contavam uma versão). 
No dia seguinte fomos ver Berlim. O tempo continuava cinzento e caía uma chuva miudinha. Lá vi o muro, percebi que a cidade estava dividida em quatro e estive num sítio  ( presumo que fosse o Check Point Charlie) onde estavam soldados americanos que não nos deixavam passar.
As imagens que recordo de Berlim são estas. 







Uma cidade cinzenta e depressiva, um povo amargo, antipático e avesso a falar outra língua que não a sua.
Abandonei Berlim com um  suspiro de alívio e prometi que não voltaria lá.  Voltei várias vezes à Alemanha, nomeadamente a Hannover, Munique, Frankfurt e Dusseldorf, mas nunca voltei a Berlim antes da queda do muro. 
No entanto, há muito tempo que a leitura de um livro me deixara com vontade de lá ir.

( Continua)