quinta-feira, 15 de junho de 2017

Berlim: De Bernauer Strasse a Prenzlauerberg

A História de Bernauer Strasse é a  história de uma cidade dividida

Aqui se passaram algumas das cenas mais dramáticas durante a construção do muro. Morreram pessoas que se atiraram das janelas dos edifícios, na tentativa de passarem para o outro lado.


De um dia para o outro, os moradores não ficaram apenas separados dos seus familiares. Muitos deles ficaram privados de lz, porque as autoridades da RDA taparam as janelas, de modo a impedir a vista sobre o outro lado da cidade.


Quando cheguei a Bernauer Strasse começou a chover ( foi o único dia em que choveu a sério durante a minha estadia em Berlim) e, pela única vez em Berlim, também senti que chorava por dentro, ao imaginar o martírio de quem  lá vivia. E lembrei-me,obviamente, do filme Adeus, Lenine.

Se em Check Point Charlie, a encenação turística retira em grande medida o peso dramático daqueles tempos...


... em Bernauer Strasse sente-se todo esse peso. É  aqui que se sente, com mais intensidade, a marca de uma cidade cruelmente dividida.

Almocei  na super animada Oranienstrasse. Uma refeição ligeira, porque não aguentava o peso dos momentos que acabara de viver. 


Prossegui a pé, sob um céu de chumbo até Prenzlauerberg. Só ao chegar próximo de Kulturbrauerei o sol voltou a brilhar e, num ápice, o céu foi-se retalhando em tons de azul.

Foi nesta antiga fábrica de cerveja, hoje    transformada num centro de encontro muito popular, especialmente entre jovens-   fez-me  recordar a LC Factory -  que recuperei a boa disposição.


Não pensem que foi graças à cerveja - esses prazeres estão-me vedados. 


Foi, sim, graças a um animado grupo de jovens alemães com quem entabulei conversa e me fizeram acreditar que os berlinenses já ultrapassaram os traumas de uma cidade dividida.


 Fingi que acreditei e todos ficamos felizes.

(Continua)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Berlim: The East Side Gallery



A História de uma cidade dividida por um muro está sempre presente quando percorremos  as ruas de Berlim.

A ideia que nos é sempre transmitida é que de um lado estavam os democratas bons e do outro os  comunistas maus. Se o objectivo é incutir  essa  ideia nas gerações mais jovens, ou um genuíno autoconvencimento não sei dizer, mas chega a ser massacrante para quem viveu esse período da nossa História, esta lavagem ao cérebro.


Pedaços do muro são visíveis em diversos lugares e nas ruas de Berlim está traçado o trajecto de todo o muro, dando aos visitantes uma ideia da sua dimensão. Depois é pôr a imaginação a funcionar, para melhor perceber  o sofrimento dos berlinenses que praticamente de um dia para o outro viram as suas vidas modificar-se de uma forma radical
Particularmente impressionante é visitar  Bernauer Strasse, mas sobre isso escreverei num próximo postal.

De volta ao muro, chegamos a East Side Gallery


Trata-se de um fragmento do muro com a extensão de pouco mais de um quilómetro, ao longo do rio Spree que permaneceu intacto




Em 1990, cera de 120 artistas de todo o mundo pintaram-no, criando uma extraordinária obra de arte mural

Como se pode ver pelas fotos, as pinturas estão bem preservadas, parecendo resistir à erosão do tempo.

Isso deve-se ao facto de a maioria dos murais ter sido restaurada em 2010 pelos artistas que os pintaram nos anos 90


Ao longo de todo o percurso é evidente o aproveitamento mercantilista para caçar turistas 

                             





"Fragmentos" do muro são vendidos a preços nada módicos como peças originais, fazendo lembrar os frasquinhos de ar de Fátima que se vendem no Santuário

Uma série de negócios paralelos, maioritariamente lúdicos, florescem ao longo e nas imediações de East Side Gallery,Check Point Charlie  ou Brandenbourg Tor, banalizando um período dramático da História de Berlim, num contraste quase absurdo com o que nos é "vendido" nas visitas ao DDR Museum ou ao Check Point Charlie Museum.
Este é um aspecto menos positivo de East Side Gallery que eu teria preferido visitar como um Memorial, sem todo o folclore turístico adjacente.
Mas não se pode gostar de tudo, não é verdade?
(CONTINUA)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Berlim: a ilha encantada

Berlim Dom Sei que parece um postal, mas é apenas um daqueles monumentos que, como algumas pessoas, ficam bem na fotografia, independentemente da qualidade do fotógrafo


Este é o quarto postal de Berlim.
Esta  semana é altura de vos levar até uma Ilha Encantada e assumir que Berlim tem um dos complexos de museus mais imponentes e diversificado que alguma vez conheci.
Património Mundial da UNESCO desde 1999,  a  Museum Insel  ( Ilha dos  Museus) fica na zona leste da cidade, a cinco minutos a pé de Alexanderplatz e a 10 da porta de Brandenburgo.
Este centro museológico, construído entre 1830 e 1930 foi fortemente afetado pelos bombardeamentos durante a II Guerra Mundial, sendo ainda bem visíveis as obras de reconstrução, bem como a edificação de um caminho que liga todos os museus.

Em termos arquitetónicos, dois edifícios se destacam dos restantes. Logo à entrada a Berliner Dom  uma catedral protestante de estilo  barroco, imponente e profusamente decorada- o que não deixa de ser surpreendente num local de culto luterano.
Na  extremidade  norte da ilha destaca-se a imponente cúpula do Bode Museum, onde se encontram o Museu de Arte Bizantina e as colecções de esculturas e de numismática.
Em 10 dias é impossível visitar todos os museus  ( até porque há muitos mais  que merecem ser visitados noutros pontos da cidade) mas além destes destacaria o Neues Museum ( onde não entrei, mas cujo edifício fascinante me dizem ser merecedor das exposições que alberga.

A porta de Ishar , bem como o Pátio das Colunas (entre a Alte Galerie e o Neues Museum)  e os relvados de  Lustgarten são locais para desfrutar sem olhar  para o relógio. Se entretanto o estômago reclamar e começar a reclamar comida, caminhe umas  escassas centenas de metros e almoce ( ou jante) num dos restaurantes com esplanada de Hackesche Hofe  de que já aqui falei num post anterior.

Curiosamente,  é  à entrada da Museum Insel ( à direita de Berliner Dom e  junto ao cais onde se apanham os barcos para um passeio pelo rio Spree)  que se encontra o DDR Museum, alvo das minhas críticas, no anterior postal de Berlim,  pela forma acintosa e não raras vezes distorcida como é retratada a sociedade alemã de Leste.  Mas como diz o ditado, não há bela sem senão…
( Continua)